Licenciosidades

Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e mijou no mar.

"Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das suas vantagens"

Adam Smith (1776), Riqueza das Nações

quinta-feira, abril 27, 2006

Vamos lá ver se é desta que me chamam fascista

Em comentário ao meu post sobre o 25 de Abril, a Roteia do Ultra-Periférico afirma não entender "como se pode passar por cima das responsabilidades do regime de Salazar no que toca ao atraso do país, atraso que aliás ainda perdura.".
Este é um erro bastante comum, o de assumir que o atraso do país se deve ao Estado Novo. O atraso do país é bem anterior ao Estado Novo, e, quando muito, foi esbatido durante esse período. Nunca existiu um período de tão grande convergência para os níveis de bem-estar europeus e de pujança económica como o período final do Estado Novo.
Façamos uma comparação muito simples aos ritmos de crescimento do PIB nos 10 anos anteriores ao 25 de Abril em relação aos 10 anos posteriores:

1964 7.1% 1975 -4.3%
1965 7.4% 1976 6.1%
1966 3.7% 1977 4.8%
1967 8.1% 1978 3.4%
1968 7.3% 1979 6.6%
1969 3.3% 1980 4.1%
1970 8.6% 1981 0.5%
1971 6.6% 1982 3.2%
1972 8.0% 1983 -0.3%
1973 11.3% 1984 -1.6%

No período de 1964 a 1973, o PIB cresceu a uma taxa média anual de 7.14%. Já no período de 1975 a 1984, os dez anos após a revolução e anteriores à CEE e a Cavaco Silva, o produto interno bruto cresceu a uma taxa média de 2.25% ao ano.

O fascismo encontra-se, tal como o comunismo, no extremo oposto dos ideais liberais que defendo. Salazar e o seu regime podem ser acusados de ofender muitas liberdades individuais e económicas, mas do que não podem ser acusados é de serem os causadores do nosso atraso. Até me atrevo a dizer que sem o suporte da herança da prosperidade económica do Estado Novo, dificilmente o regime democrático saído do 25 de Abril se teria aguentado. Ironicamente, o génio financeiro do Professor de Santa Comba Dão terá ajudado a suportar a democracia que ele tanto espezinhou.

quarta-feira, abril 26, 2006

Ainda o 25 de Abril

Eu não gosto de movimentos militares, ainda menos quando são de extrema esquerda. Mas confesso:
estas meninas até já marchavam...

26 de Abril sempre!

terça-feira, abril 25, 2006

Reacção desconexada e a quente ao discurso de Cavaco Silva

Ainda não foi desta que elegemos um presidente não-socialista. Cavaco está somente preocupado em ser reeleito com o apoio do PS.
Os aplausos finais demonstram que não há direita no parlamento e muito menos liberais. A única reacção inteligente foi a dos deputados do PS que tinham todos os motivos para aplaudir. Todas as outras reacções, tanto o não-aplauso da CDU e BE como os aplausos do PSD e do PP, foram meramente pavlovianas. Na Assembleia da República não temos homens, temos cães que salivam ao som de estímulos. No dia que se propõe celebrar a democracia, os nossos dirigentes políticos deram mostras dos seus dois piores aspectos: a demagogia e a hipocrisia.

segunda-feira, abril 24, 2006

25 de Abril

Faz hoje trinta e dois anos que um grupo de soldados decidiu que não queria ir para uma guerra imbecil, e que a única forma de o evitar era acabar com um regime. O regime estava podre e sentia-se que ao primeiro abanão cairia.
O regime caiu naquilo que se convencionou chamar a revolução da liberdade. Muitos pensaram que seria, efectivamente, a revolução da liberdade e da democracia, mas cedo se concluiu que aqueles que tomaram a revolução para si pouco sabiam de liberdade e não gostavam de democracia.
A liberdade surgiu, sim, mas só para alguns. Os anos que se seguiram à revolução foram de perseguições tão más ou piores do que aquelas que tinham sido feitas durante a ditadura. A revelação dos nomes dos informadores da PIDE provocou uma chacina em muitas zonas rurais e mesmo aqueles que mais tarde vieram a provar-se inocentes tiveram a sua vida arruinada. Os que de alguma forma tiveram sucesso antes de Abril foram perseguidos, chamados de fascistas, nem Amália Rodrigues escapou. Entre os empresários havia muitos que tinham enriquecido graças ao regime, mas muitos também pelo seu trabalho e parcimónia:todos acabaram expulsos do país, expurgados da sua riqueza. Nos meses seguintes à revolução o país viu sair os melhores gestores e técnicos, aqueles que podiam dar um rumo ao país, criar alternativas. O resultado foi que em 1976 o país estava muito mais pobre e a classe operária iria reparar que apesar de receberem muito mais, podiam comprar muito menos.
Quanto ao sentido de democracia de quem se apoderou da revolução, penso não haver grandes dúvidas. Em entrevista a Oriana Falacci, Álvaro Cunhal disse (entre outras coisas): “Nós, os comunistas, não aceitamos o jogo das eleições (...) Se pensa que o Partido Socialista com os seus 40 por cento de votos, o PPD, com os seus 27 por cento, constituem a maioria, comete um erro. Eles não têm a maioria (…) Estou a dizer que as eleições não têm nada, ou muito pouco, a ver com a dinâmica revolucionária (...) Se pensa que a Assembleia Constituinte vai transformar-se num Parlamento comete um erro ridículo. Não! A Constituinte não será, de certeza, um órgão legislativo. Isso prometo eu. Será uma Assembleia Constituinte, e já basta (...). Asseguro-lhe que em Portugal não haverá Parlamento (...) Nós, os comunistas, já tínhamos afirmado aos militares que o PPD não devia estar presente [nas eleições], que não se podia conduzir o país ao socialismo por meio de uma ampla coligação democrática. Mas eles quiseram juntar socialistas, comunistas, sociais-democratas e as diversas correntes do MFA... Tínha-mo-los avisado de que as eleições constituíam um perigo, que eram prematuras, que se não se tomassem precauções as perderíamos (…) Democracia para mim significa liquidar o capitalismo, os monopólios. E acrescento: não existe hoje em Portugal a menor possibilidade de uma democracia como as da Europa Ocidental”.
Quando se apoderaram da revolução, os comunistas não queriam a democracia, queriam voltar o regime ao contrário e durante algum tempo conseguiram-no.
O 25 de Abril não foi a revolução da liberdade nem da democracia. A democracia instalou-se contra a vontade de muitos e ainda hoje temos de lutar para a manter em toda a sua plenitude. Em relação à liberdade apercebemo-nos que a luta ainda não está ganha quando vemos os atentados à propriedade privada; quando uma pessoa não pode dispor da sua propriedade mais íntima, o seu corpo, para doar órgãos, abortar, prostituir-se ou morrer sem dor; quando o estado regula pormenores mais ínfimos da vida privada desde o tipo de contrato de trabalho que estabelece, até ao número e sexo das pessoas com quem o indivíduo quer ter uma vida em comum.
A luta pela liberdade adivinha-se longa e hoje, como há 32 anos, tem os seus obstáculos, os conservadores, aqueles que beneficiam do regime. O 25 de Abril não foi a revolução da liberdade nem da democracia mas instalou o caos que nos viria a colocar no caminho para as conseguir e, por isso, merece celebração (sem cravos).

Herdeiro d'O Acidental

O Blog da Revista Atlântico, com a participação de muitos ex-acidentais, está renovado. E a próxima revista sai já a 27 de Abril.


sexta-feira, abril 21, 2006

Dão-se alvíssaras a quem me disser quem são os pais desta

Glória Maria da Silva Araújo

Deputado do dia - Afonso Candal


  • Partido
    PS
  • Círculo Eleitoral
    AVEIRO
  • Data de Nascimento
    02-03-1971 (35 anos)
  • Habilitações Literárias
    Frequência do 5º Ano do Curso de Economia
    ; (Iniciou o curso em 1989, até hoje falhou em terminá-lo. Nota adicional: todos os anos a Faculdade de Economia do Porto, que frequenta, forma com sucesso perto de 150 economistas)
  • Cargos exercidos
    Deputado na VII, VIII e IX Legislaturas;
    Vice-Presidente do PS entre (2004-2005);
    Vice-Presidente da Federação Portuguesa de Remo;
  • Critério de selecção: filho de Carlos Candal

quinta-feira, abril 20, 2006

Pesquisa do dia

Casas de alterne na Suiça

O José Barros tem um convite vitalício para escrever neste blog

"Petróleo ao preço mais alto de sempre"

Ou não.
Evolução do preço real do barril do petróleo em euros

Fonte: Die Presse

quarta-feira, abril 19, 2006

500 anos

Expliquem-lhes como se eles fossem muito socialistas

Porque é que dificultar os despedimentos cria desemprego?

*corrigido

Índia

terça-feira, abril 18, 2006

Dá que pensar...

Vale a pena analisar estes gráficos que o JLP disponibiliza no Small-Brother, diz muito da injustiça social que se passa neste país.
A propósito disso também ler esta história do Miguel Duarte.

Do mesmo autor de "Economics for dummies" (refinação)

Numa pequena comunidade existem 150 indivíduos activos. Nessa mesma comunidade existem duas empresas, únicos empregadores. Uma das empresas produz casacos côr-de-laranja e a outra casacos côr-de-rosa. No passado notou-se que existe uma correlação perfeitamente negativa entre as vendas das empresas: quando uma empresa se encontra em expansão, a outra encontra-se em recessão e vice-versa. Neste caso consideremos que a empresa laranja está a expandir as suas vendas no 1º período e em retracção no 2º periodo. Num período de expansão uma empresa necessita de 100 trabalhadores, num periodo de recessão, apenas 50.

Consideremos 3 situações:
i) Existe flexibilidade total no mercado trabalho.
ii) O mercado de trabalho é rígido e os gestores da empresa conseguem antecipar os ciclos.
iii) O mercado de trabalho é rígido e os gestores da empresa não conseguem antecipar os ciclos.

O que acontecerá à taxa de desemprego em cada um dos casos?

i) No 1º período em que a empresa laranja se encontra em expansão irá contratar 100 trabalhadores, e a empresa rosa, em recessão, irá contratar 50. No segundo período, como há flexibilidade laboral, a empresa laranja irá despedir 50 trabalhadores que serão absorvidos pela empresa rosa, agora com mais necessidades de pessoal.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 0%
Taxa de desemprefo na 2ª fase: 0%

ii)Em ambos os períodos, ambas as empresas irão contratar 50 trabalhadores porque sabem que no período recessivo não os poderão despedir.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 33%
Taxa de desemprego na 2ª fase: 33%

iii)Não conseguindo antecipar o ciclo recessivo que se aproxima, a empresa laranja contrata 100 pessoas no 1º período. No período recessivo a empresa, forçada a manter os 100 trabalhadores, vai à falência. A empresa cor de rosa irá contratar 50 no 1º periodo e manterá o mesmo número no 2º periodo pelas razões apontadas anteriormente.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 0%
Taxa de desemprego na 2ª fase: 67%

domingo, abril 16, 2006

Do mesmo autor de "Economics for dummies"

(a propósito deste post e a discussão que se gerou na caixa de comentários.)

Numa pequena comunidade existem 100 indivíduos activos. Nessa mesma comunidade existe uma pequena empresa, único empregador. Num período de expansão económica essa empresa necessita de 100 trabalhadores, num período de recessão, apenas 50. Consideremos 3 situações:
i) Existe flexibilidade total no mercado trabalho.
ii) O mercado de trabalho é rígido e os gestores da empresa conseguem antecipar os ciclos.
iii) O mercado de trabalho é rígido e os gestores da empresa não conseguem antecipar os ciclos.

O que acontecerá à taxa de desemprego em cada um dos casos?

i) No período de expansão a empresa contratará os 100 trabalhadores disponíveis. No período recessivo a empresa irá despedir 50 trabalhadores.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 0%
Taxa de desemprego na 2ª fase: 50%

ii)No período de expansão, em que necessita de 100 trabalhadores, a empresa prefere contratar apenas 50 e sub-produzir ou pedir que trabalhem horas extra porque sabe que quando chegar o período da recessivo não os poderá despedir.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 50%
Taxa de desemprego na 2ª fase: 50%

iii)Não conseguindo antecipar o ciclo recessivo que se aproxima, a empresa contrata 100 pessoas no período de expansão. No período recessivo a empresa, forçada a manter os 100 trabalhadores, vai à falência.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 0%
Taxa de desemprego na 2ª fase: 100%

Notas:
- Na situação ii) aqueles que estão desempregados na 2ª fase já o estavam desde a 1ª fase. Ou seja, favorece-se o desemprego de longa duração.
- Na situação iii), se houver uma terceira fase de expansão, a taxa de desemprego continua a ser de 100% porque entretanto se destruiu a única estrutura produtiva.
- Pelo contrário, na situação i), a taxa de desemprego voltará aos 0% numa terceira fase, evitando assim o desemprego de longa duração. Para além disto, os 50% de desempregados numa segunda fase não serão completamente desqualificados porque já tiveram uma experiência de trabalho anterior.

Notas de regresso

Um post por pontos (com a promessa de não o fazer mais de uma vez por semana):

1- Tirando a parte de ler elogios fúnebres, é uma imbecilidade terminar blogs individuais. De hoje em diante, poderei deixar de escrever durante períodos longos, mas jamais voltarei a terminar um blog.

2- Há dois anos atrás estava a viver na bela cidade de Izmir, na Turquia. Durante o período que lá passei houve uma exposição de uma estudante da Universidade de Ege em que Maomet era retratado, embora duma forma abstracta. Não me lembro de ter havido qualquer tipo de reacção violenta.

3- Sei que o nome licenciosidades não é grande coisa, mas foi o único que consegui encontrar que fosse pior que Tau-Tau.

4- Não haverá grandes razões para ler este blog. Tudo o que aqui escrever com uma qualidade mínima será também postado no Small-Brother.

5- Não gosto de Sarkozy.

6- O Carlos Abreu Amorim foi domado pelas aparições mediáticas. O maior exemplo disso é a sua não-reacção a esta notícia. Durante dois dias mantive uma janela aberta com o Blasfémias e ia fazendo refresh constantemente, esperando pelo post do CAA, mas nada. O próximo post que escrever sobre ele será certamente para noticiar a adesão desse padreco à ordem das carmelitas descalças.

7- O Dolo Eventual é o melhor blog de esquerda da blogosfera, e nesta altura o único que consigo ler sem vomitar banalidades.

8- Por falar em Dolo Eventual, onde estava o deputado Manuel Alegre no dia 12 de Abril? E Paulo Portas?

9- Na última semana a professora da minha afilhada de 6 anos esteve de férias e a repartição de finanças da minha área estava a meio gás devido às baixas médicas. Um pouco por todos os organismos públicos sentiu-se que estávamos em pleno período de férias. Milhares e milhares de funcionários públicos por esse país fora gozaram férias na última semana recorrendo a mecanismos ilegais que de uma forma ou de outra são já tacitamente aceites por todos. Aquilo que os deputados fizeram no dia 12 de Abril foi só um reflexo do que se passa por esse país fora. Pior ainda, teria tudo passado despercebido se mais meia dúzia deputados estivessem presentes para formar quorum.

10- Tenho saudades de usar a palavra subrepticiamente num post.

11- Para amanhã estão marcadas já algumas greves. Tenho a sensação que o dia 24 de Abril também será marcado por lutas laborais.

12- A Atlântico de Março foi uma das melhores obras-de-arte do jornalismo português dos últimos anos.

13- Espero que o Luís Lavoura concorde.

2 meses e meio de fora

Porque é que o Sarkozy negoceia com ignorantes socio-dependentes quando são brancos mas chama-lhes escumalha quando são magrebinos?

2 meses e meio de fora

O Cavaco Monstro-Força-de-Bloqueio Silva já tomou posse?

sexta-feira, abril 07, 2006

Regresso

Dois meses, a desintoxicação falhou.
Retorno à convivência blogosférica após as festividades pascoais para que não haja confusões com outro tipo de ressurreições. Um ritmo mais pausado, o mesmo estilo, o mesmo template, no endereço do costume, apenas muda o nome: o Tau-Tau passa a chamar-se Licenciosidades.

quinta-feira, abril 06, 2006

Até sempre, camaradas!

Nunca fui aquilo que se possa considerar leitor do Abrupto. No princípio passava os olhos pelo blog uma ou duas vezes por mês quando me lembrava, hoje só o leio quando algum dos meus blogs favoritos refere um seu post. Quando a blogosfera política nasceu, nomeadamente a liberal, apesar de haver blogs com muita qualidade, nunca nenhum me atraiu ao ponto de me tornar leitor diário.
O Acidental foi o primeiro.
O Acidental foi o primeiro blog que comecei a visitar diariamente, com a mesma frequência das páginas informativas. O Acidental puxou-me para a blogosfera.
Até hoje tinha esperança que o anúncio do fim dO Acidental fosse reversível, quiçá uma brincadeira para irritar os adversários à direita e à esquerda, parece que não. Acabaram-se as graçolas do Rodrigo Moita Deus, as horas passadas de dicionário na mão a lêr os posts do Henrique Raposo, a irreverência do Francisco Mendes da Silva ou do Nuno Costa Santos, os diamantes raros da Ana Albergaria, a pertinência do Eduardo Nogueira Pinto e muito mais, numa equipa galáctica montada pelo Paulo Pinto Mascarenhas. Como sempre me deram tudo de borla, não lhes posso exigir nada, nem me atrevo a pedir que fiquem. Resta-me agradecer: muito, muito obrigado pela companhia diária neste último ano e meio e por terem sido a minha porta para a blogosfera.
Não sei se este será o fim desta blogosfera, mas que acaba uma boa parte dela, acaba.

Até sempre, camaradas!