Licenciosidades

Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e mijou no mar.

"Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das suas vantagens"

Adam Smith (1776), Riqueza das Nações

domingo, abril 16, 2006

Do mesmo autor de "Economics for dummies"

(a propósito deste post e a discussão que se gerou na caixa de comentários.)

Numa pequena comunidade existem 100 indivíduos activos. Nessa mesma comunidade existe uma pequena empresa, único empregador. Num período de expansão económica essa empresa necessita de 100 trabalhadores, num período de recessão, apenas 50. Consideremos 3 situações:
i) Existe flexibilidade total no mercado trabalho.
ii) O mercado de trabalho é rígido e os gestores da empresa conseguem antecipar os ciclos.
iii) O mercado de trabalho é rígido e os gestores da empresa não conseguem antecipar os ciclos.

O que acontecerá à taxa de desemprego em cada um dos casos?

i) No período de expansão a empresa contratará os 100 trabalhadores disponíveis. No período recessivo a empresa irá despedir 50 trabalhadores.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 0%
Taxa de desemprego na 2ª fase: 50%

ii)No período de expansão, em que necessita de 100 trabalhadores, a empresa prefere contratar apenas 50 e sub-produzir ou pedir que trabalhem horas extra porque sabe que quando chegar o período da recessivo não os poderá despedir.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 50%
Taxa de desemprego na 2ª fase: 50%

iii)Não conseguindo antecipar o ciclo recessivo que se aproxima, a empresa contrata 100 pessoas no período de expansão. No período recessivo a empresa, forçada a manter os 100 trabalhadores, vai à falência.
Taxa de desemprego na 1ª fase: 0%
Taxa de desemprego na 2ª fase: 100%

Notas:
- Na situação ii) aqueles que estão desempregados na 2ª fase já o estavam desde a 1ª fase. Ou seja, favorece-se o desemprego de longa duração.
- Na situação iii), se houver uma terceira fase de expansão, a taxa de desemprego continua a ser de 100% porque entretanto se destruiu a única estrutura produtiva.
- Pelo contrário, na situação i), a taxa de desemprego voltará aos 0% numa terceira fase, evitando assim o desemprego de longa duração. Para além disto, os 50% de desempregados numa segunda fase não serão completamente desqualificados porque já tiveram uma experiência de trabalho anterior.

9 boas festas:

  • Estas histórias são sempre um espectaculo. Estou a ver que isto está a re-arrancar. Estou a ver que tb cedeste ao profissionalismo com o small-brother. Não acho nada mal (pelo contrario) mas talvez fosse bom evoluir da fase "eco".
    um abraço

    By Blogger Tiago Alves, at segunda-feira, abril 17, 2006 1:49:00 da tarde  

  • Tiago, não deves pôr o enfase na evolução mas sim na escolha. Este poderia ser um fotoblog ou um blog de poesia poética mas não o é, porque não quero que seja.
    Em relação aos blogs colectivos acho que são mais um sinónimo de "desprofissionalização", na medida em que retiram alguma da pressão para escrever. Sem eleições, a blogosfera está em ritmo de passeio, o ideal para quem quer fugir à profissionalização e escrever pelo puro prazer de o fazer.
    Abraço.

    By Blogger CGP, at segunda-feira, abril 17, 2006 2:59:00 da tarde  

  • Karloos, já terás ouvido falar - quiçá através de estórias narradas por viajantes e forasteiros - em contrato a termo?

    Com a flexibilização total, como poderá um trabalhador planear a sua vida (fazer um empréstimo, por exemplo, para comprar casa, etc) correndo o risco de um momento para o outro ficar na rua? O contrato a termo serve perfeitamente o interesse do empresário e o interesse do trabalhador. É preciso não esquecermos que a economia deve ser desligada do puro abstraccionismo, já que ela está ao serviço das pessoas e não o contrário.

    By Blogger Pedro Santos Cardoso, at segunda-feira, abril 17, 2006 4:37:00 da tarde  

  • Pedro, eu sou a favor da liberdade contratual. Os trabalhadores e as entidades empregadoras devem ter o direito de fazer os contratos que quiserem. Se ambos quiserem estabelecer um contrato vitalício, que o façam. Mas não devem ser forçados a assinarem-no pelo estado.
    Como se pode vêr pelo exemplo a economia está sempre do lado das pessoas, mesmo que os seus raciocínios sejam contra-intuitivos. Ainda não percebi como é que podem ser as pessoas ao serviço da economia.

    By Blogger CGP, at segunda-feira, abril 17, 2006 6:08:00 da tarde  

  • A questão, Karloos, é que do modo como pões as coisas em cima da mesa só fica precavido o direito do empresário em contratar e despedir quando melhor lhe aprouver. É preciso um equilíbrio de interesses empresário-trabalhador que nã ponha em causa a dignidade da pessoa humana. Com um contrato a termo, penso, consegue-se esse equilibrio. O empresário, por um lado, satisfaz as suas necessidades de acréscimo temporário de actividade laboral; o trabalhador, por outro, sabe com o que pode contar e pode planear a sua vida em função disso. Equilibrio. Equilibrio sempre.

    A economia nem sempre está do lado das pessoas, caso não haja o tal necessário equilíbrio. Isto é, caso a assinatura de um contrato laboral deixe o trabalhador completamente desprotegido em termos de despedimento. É que se tu dás poder demais a um empresário ele abusa - até criminalmente -, uma vez que sabe que tem o empregado na mão. É um princípio que não vale apenas para a figura do empresário, mas para a espécie humana em geral.

    Curiosidade: precisamente em atenção ao princípio da liberdade contratual e da autonomia privada não são permitidos contratos vitalícios.

    Mas é saudável o debate. Conto vir a ter muitos contigo.

    Um abraço

    By Blogger Pedro Santos Cardoso, at segunda-feira, abril 17, 2006 6:51:00 da tarde  

  • Eu não concordo que seja o estado a impôr um tipo de contrato. As partes devem poder escolher que tipo de contrato querem establecer. Com uma situação de liberdade contratual aconteceria que quanto mais curto fosse o termo do contrato maior seria o salário já que o trabalhador estaria a partilhar o risco da empresa. O que acontece hoje é que o estado proíbe-me de assumir o risco e de ganhar o respectivo prémio. Eu não concordo que seja imposto um tipo de contrato completamente flexivel mas sim que haja liberdade para que cada um possa estabelecer um contrato de acordo com os seus interesses. Não és tu, nem os governantes que devem decidir que o contrato a termo é o melhor, ou o contrato flexivel, mas sim quem o assina.

    By Blogger CGP, at terça-feira, abril 18, 2006 1:17:00 da manhã  

  • Karloos,

    essas histórias silogísticas de lógica formal são todas muito bonitas e parecem todas muito verosímeis, é certo; porém não conseguem passar o crivo da realidade da vida prática.

    E o que é que acontece na vida prática? Temos, uma parte forte e uma parte fraca. A parte forte é o empresário, com o seu departamento jurídico, o seu poder económico; a parte fraca é o trabalhador. A parte forte tem muito maior poder de negociação do que a parte fraca - ou achas mesmo que todos os empresários predispõem-se a concertar interesses? E que pagam bem ao trabalhador só porque ele assume o risco? Ai, os livros e a realidade, os livros e a realidade... Dão-lhe (ao trabalhador) um contrato pré-feito e pronto. O trabalhador que assine se quiser.

    Pela tua ordem de ideias, deveria ser abolido o direito a férias, subsídio de férias, subsídio de natal, etc. É que tal é uma intromissão intolerável do Estado na vida dos particulares, que devem compor os seus interesses. Se o Estado não tornasse imperativos, por exemplo, os 22 dias úteis de férias, achas mesmo que boa parte dos empresários os dariam? Pois pelo que eu conheço da vida, muitos não dariam.

    Ainda por cima no exemplo que deste no post: 100 trabalhadores numa localidade onde haveria apenas uma única empresa. Aqui o que iria acontecer numa época, por exemplo de recessão, no plano da realidade e não das utopias livrescas é que 50 trabalhadores teriam condições salariais de miséria, e direitos quase nenhuns. Outra metade estaria desempregada. E os 50 que trabalhavam não tinham outro remédio senão aceitar.

    É um pouco como o que se passa no direito do consumo: há uma parte fraca (o consumidor) que importa proteger com várias normas que responsabilizam o produtor, vendedor, etc pela desconformidade do produto, dando inclusivamente prazos mínimos de garantia. É ímperativo que o Estado intervenha neste sentido, caso contrário os abusos seriam uma constante invariável - se ainda assim o são... A espécie humana tende a devorar-se a si própria, e é preciso conter esses seus instintos.

    By Blogger Pedro Santos Cardoso, at terça-feira, abril 18, 2006 12:47:00 da tarde  

  • Não.
    Existe uma interdependência entre trabalhadores e empresários. Os empresários actualmente são obrigados a pagar um salário mínimo, no entanto a maioria dos trabalhadores recebe acima desse salário. Como é que isto acontece se todo o poder está do lado dos empresários? Se assim fosse receberiam todos o salário mínimo.
    Uma prova que os empresários premeiam o risco é que pagam mais a empresas de trabalho temporário pela contratação de trabalhadores do que pagariam se estabelecessem um contrato de trabalho normal.
    O subsídio de férias e de natal é descontado do teu salário mensal todos os meses. O legislador achou por bem tomar a decisão de obrigar todos os trabalhadores a pouparem todos os meses um certo montante para terem mais dinheiro no Natal e nas férias de Verão. Ou pensavas que esse dinheiro surgia do nada?
    Não existe parte fraca nem forte, somos todos interdependentes. Neste momento se há uma parte forte é a dos trabalhadores. Senão repara: um trabalhador pode desvincular-se de um contrato de trabalho em qualquer altura sem motivo mas a empresa não. O trabalhador tem um subsidio de desemprego mas a empresa não tem subsidio de falência o que tem muita importância na altura da negociação salarial. É preciso que haja essa consciência. Sei que tudo isto é contra-intuitivo, que violenta o senso-comum, mas é assim.

    By Blogger CGP, at terça-feira, abril 18, 2006 1:22:00 da tarde  

  • Viola o senso comum é uma análise distanciada da prática. Não concordo em absoluto, mas tenho mesmo de ir trabalhar. ;-)

    By Blogger Pedro Santos Cardoso, at terça-feira, abril 18, 2006 1:34:00 da tarde  

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