Licenciosidades

Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e mijou no mar.

"Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das suas vantagens"

Adam Smith (1776), Riqueza das Nações

sexta-feira, maio 05, 2006

Elogio à Crítica

Há anos que Desidério Murcho, criador do site Crítica, tem vindo a dar um contributo inestimável ao ensino da filosofia e à educação em Portugal. Fá-lo sem o impacto mediático do novo livro de Nuno Crato sobre os males do eduquês, mas, quanto a mim, com maior eficácia e utilidade.
A Crítica começou por ter como objectivo a introdução do estudo da filosofia analítica no nosso país, mas rapidamente se transformou num espaço de discussão filosófica, no qual se podia debater ideias com pessoas inteligentes e cultas como, por exemplo, o João Miranda ou o Aires de Almeida.
Por outro lado, Desidério Murcho nunca foi um pedagogo dogmático. Nunca se preocupou em indoutrinar quem quer que fosse, mas simplesmente em demonstrar pacientemente a utilidade de se escrever com clareza e elegância, a importância de se raciocionar adequadamente e de se submeter os argumentos à crítica dos pares.
Hoje, a crítica tem milhares de visitantes e disponibiliza centenas de textos, muitos dos quais essenciais para professores e alunos. Num país em que os professores quase nunca mostram preocupação em divulgar ao grande público os principais problemas, teorias e argumentos das suas áreas, tal trabalho tem um valor acrescido e mereceria maior reconhecimento.
Paralelamente, o CEF, que conta com muitos autores da Crítica, vem desenvolvendo um trabalho meritório de reforma dos programas da disciplina, tornando-os progressivamente mais simples, inteligíveis e, sobretudo, correctos. Para quem, como eu, teve a péssima experiência de assistir a aulas em que alguns professores de filosofia produziam discursos ininteligíveis sobre autores como Kant ou Descartes ou revelavam simplesmente uma má compreensão dos problemas filosóficos e uma certa incapacidade para discutir ideias, é um prazer saber que os alunos do secundários poderão finalmente começar a aprender, pelo menos, por programas e manuais escolares adequados.
Vem isto a propósito da recente discussão sobre o livro de Nuno Crato, que já tive oportunidade de ler. O autor tem toda a razão em desmascarar o perigo de certas ideias pedagógicas e em fazer defesa da importância da memorização no ensino. O ponto é que erra na ideia de que a importância da memorização não é suficientemente estimada no ensino português.
Muito pelo contrário, se há coisa que se nota, pelo menos, nas humanidades, é que os alunos não fazem outra coisa se não memorizar informação (correcta ou incorrecta, é outra questão...).
Em todo o caso, o que importa dizer é que é bem mais evidente a incapacidade geral de alunos (e, muitas vezes, professores) em raciocinar de acordo com regras básicas da lógica, em argumentar a favor das suas posições, em sequer ter opiniões sobre os assuntos que estudam. Tal incapacidade não é obviamente natural, mas adquirida por força de um ensino pouco crítico, cuja causa só muito remotamente poderá ter a ver com o eduquês. Importa, pois, antes de mais perceber o diagnóstico do problema. Para tal, convido os leitores a darem um salto à Crítica e a lerem alguns dos editoriais de Desidério Murcho.

10 boas festas:

  • Que os programas de filosofia com a reforma se tornem mais simples concordo, mais intelígiveis tenho dúvidas e mais correctos discordo. Aquilo que os programas se têm tornado, isto é, o caminho da filosofia analítica é redutor e insuficiente. Sobre a ininteligibilidade de Kant ou de Descartes não tenho qualquer dúvida, sobre os professores que os dão uns são melhores e outros piores, como em tudo na vida. Concluo que a sua visão disideriana da filosofia é curta para o meu gosto.

    By Blogger Xor Z, at sábado, maio 06, 2006 10:59:00 da tarde  

  • Caro Xor Z,

    Não creio que os programas se tenham tornado mais próximos da filosofia analítica.
    O que me parece é que estão mais próximos da ideia de que na filosofia se discute problemas (sentido da vida, livre-arbítrio, etc..) que as várias teorias filosóficas procuram resolver, fazendo uso para tal de argumentos válidos ou inválidos, sólidos ou fracos, melhores ou piores.
    A razão da minha preferência prende-se com o facto de com programas destes os alunos aprenderem a pensar e argumentar de forma mais cuidada. É essa a função do ensino da filosofia.

    Concluo que a sua visão disideriana da filosofia é curta para o meu gosto. - Xor Z.

    Nem eu tenho uma visão desideriana da filosofia, nem o ensino da filosofia deve ser uma questão de gosto. O problema na filosofia que se faz em Portugal é precisamente ser tudo uma questão de gosto.

    By Blogger JB, at domingo, maio 07, 2006 3:50:00 da manhã  

  • JB a revelar-se mais uma excelente surpresa na blogosfera, após os prometedores comentários no Blasfémias.

    Boa, JB. E seja irreverente. :-)

    posted by anti-comuna

    By Anonymous Anónimo, at domingo, maio 07, 2006 2:32:00 da tarde  

  • Que a filosofia deve ter como meta a discussão de problemas está fora de qualquer dúvida. Que essa discussão deve ter como alvo a validade dos argumentos é outra questão. A filosofia não se ensina no modo tradicional do termo. Na sua opinião a filosofia é aprender a pensar e a argumentar. Se a primeira é indubitável a segunda prende-se mais com certas facetas que, embora não alheias à filosofia, não formam o seu corpo principal nem o mais importante. A questão de argumentação, e este é o meu argumento, não deve ser empolada em detrimento de outras igualmente, ou mais, importantes. A filosofia não se pode resumir à calibragem de argumentos, desidério da filosofia analítica e do amigo murcho.

    By Blogger Xor Z, at domingo, maio 07, 2006 4:23:00 da tarde  

  • Obrigado, caro anti-comuna, pelo incentivo.
    Que as palavras também não lhe doam a si. Continuarei a lê-lo no Blasfémias, diga o JPP o que disser.

    By Blogger JB, at domingo, maio 07, 2006 11:11:00 da tarde  

  • A questão de argumentação, e este é o meu argumento, não deve ser empolada em detrimento de outras igualmente, ou mais, importantes. A filosofia não se pode resumir à calibragem de argumentos, desidério da filosofia analítica e do amigo murcho. - Xor Z

    Eu falho em descortinar essas outras dimensões igualmente importantes da filosofia. Quer explicá-las? Não me importo nada, bem pelo contrário, em publicar a sua resposta e comentá-la em post.

    Antes disso, conto-lhe a minha experiência e dou-lhe a minha opinião.

    Estudei filosofia durante 3 anos numa universidade portuguesa e fiquei a saber o mesmo que sabia antes de entrar. O pouco que sei de filosofia, hoje em dia, deve-se ao meu próprio esforço auto-didacta e a pessoas como o Desidério Murcho, o JM e outros tantos que aceitaram discutir comigo os mais diversos problemas filosóficos. Não teria aprendido nada se eles não me tivessem corrigido, discutido as minhas ideias, avançado argumentos e sugerido artigos ou livros.
    Ora como o que eles fazem não é feito diariamente nas escolas e universidades portuguesas, dá-se o caso de a filosofia que se faz em Portugal ser em termos internacionais irrelevante.

    By Blogger JB, at domingo, maio 07, 2006 11:25:00 da tarde  

  • Caro Jb
    Há duas coisas diferentes, uma a prática da filosofia e outra o ensino da filosofia. Penso que o ensino é importante antes da prática. Se esse ensino é bom ou mau é outra questão.
    Vou-lhe falar do meu caso pessoal: estudei filosofia 4 anos numa universidade portuguesa e esse curso além da lógica, retórica e argumentação tinha outras cadeiras como história da filosofia (antiga, moderna, etc), epistemologia, filosofia social e política, ética, ontologia, etc. Como você aprendi muito pouco (concordemos, salvo raras excepções, o ensino da filosofia é mau no nosso país) e tudo o que sei hoje o fui aprendeendo aos poucos por meu próprio esforço sem Desidério Murcho e JM (?)mas talvez com outros que não vêm ao caso. Estou neste momento a elaborar um trabalho que tem uma vertente histórico-filosófica com acento ético e sócio-político e, tenho de dizê-lo com frontalidade, aquilo que aprendi na faculdade, embora não suficiente, de Rousseau, Locke, Kant, Hegel, Fichte ou Schelling, para só citar alguns tem-me servido nesta minha lida e forma uma base a partir da qual é possível aprender filosofia. Além de ter tido que ler outros que a faculdade não fornece por razões varias.
    Continuo na minha: como calibrar argumentos ontológicos, éticos (com delimas provavelmente), epistemológicos, sociológicos, psicológicos ou políticos? E a metafísica? Haverá, como queria Alberto Caeiro, suficientemente metafísica em não pensar em nada?
    Este é o meu ponto de vista, o seu é diferente e tem todo o direito em expressá-lo e eu em combatê-lo.
    Saudações polémicas.

    By Blogger Xor Z, at segunda-feira, maio 08, 2006 11:43:00 da tarde  

  • Continuo na minha: como calibrar argumentos ontológicos, éticos (com delimas provavelmente), epistemológicos, sociológicos, psicológicos ou políticos? E a metafísica? Haverá, como queria Alberto Caeiro, suficientemente metafísica em não pensar em nada?
    Este é o meu ponto de vista, o seu é diferente e tem todo o direito em expressá-lo e eu em combatê-lo.

    Caro Xor Z,

    A filosofia, tal como se pratica nas universidades inglesas ou americanas e como eu defendo ser praticada, não tem de ignorar a complexidade da argumentação de maior parte dos filósofos, nem, muito menos, reduzi-la a uma fórmula. Simplesmente, também não tem de reverenciar filósofos mortos, ao ponto da recusa de discutir as suas ideias. Em última análise, isso é recusar fazer filosofia.
    Agora que estudo direito e estou no fim do curso, imagino o que seria os professores de direito dizerem-me - como me disseram alguns professores de filosofia - que não podia ou não devia discutir problemas jurídicos ou as soluções dos vários autores porque ainda não adquirira a maturidade jurídica suficiente para fazê-lo. Pura e simplesmente, é inimaginável tal situação. E, no entanto, na filosofia que se ensina por cá é o pão nosso de cada dia. É esta mentalidade que, a um nível mais geral, resulta na incapacidade de tanto professores como alunos discutirem ideias, serem inovadores nas respectivas áreas e a merecerem atenção da parte dos seus pares no estrangeiro.

    Um abraço,

    Ps: o JM fazia parte da lista argumentos da crítica e com ele perdi (ou ganhei) bastantes horas a discutir filosofia política. Embora não sendo filósofo, nem tendo formação na área, o JM é um raro exemplo de raciocínio brilhante e original. Mesmo que tal raciocínio seja frequentes vezes falacioso.

    By Blogger JB, at terça-feira, maio 09, 2006 2:27:00 da manhã  

  • Correcção:

    "...defendo dever ser praticada..." em vez de "...defendo ser...".

    By Blogger JB, at terça-feira, maio 09, 2006 2:27:00 da manhã  

  • Caro JB
    Perdõe a demora mas estive dois dias sem net. Está talvez na altura de fazer um ponto de situação da nossa polémica. Assim, existem coisa em que concordamos: que o ensino da filosofia em Portugal é mau (o seu exemplo da maturidade é sintomático daquilo que nos espera durante o curso de filosofia), que a filosofia sempre que possível deve debater casos, etc.
    O que não concordamos é que a filosofia anglo-americana é o suprasumo da filosofia. Não é que não haja filósofos anglo-americanos que devam merecer a nossa atenção (lembro-me, assim de repente, de Rawls, Rorty ou Putnam), só que a filosofia não se sujeita a escola ou facções. Devo recordar-lhe que não responde à minha pergunta, feita através do Alberto Caeiro, de haver suficiente metafísica em não pensar em nada (como calcula não é a pergunta em si que tem importância mas a sua significação). Também não me esclarece como calibrar argumentos ontológicos, éticos, etc. Fico a agurdar a sua réplica.
    Saudações

    PS Ainda não consegui perceber quem é o JM.

    By Blogger Xor Z, at quinta-feira, maio 11, 2006 11:40:00 da tarde  

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