Licenciosidades

Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e mijou no mar.

"Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das suas vantagens"

Adam Smith (1776), Riqueza das Nações

quarta-feira, maio 10, 2006

Liberalismo em Portugal 2

Ao vazio decorrente da falta de pessoas que possam protagonizar um projecto liberal, acresce a possibilidade de o discurso liberal, enquanto discurso político, não corporizado num projecto e em pessoas que o representem, se transformar numa amálgama de ideias feitas, de clichés mal percebidos e inconscientemente reproduzidos por quem pensa o contrário daquilo que tal discurso pressupôe e exige. O perigo de corrupção não é despiciendo se entendermos que a blogosfera contribuiu para fazer do liberalismo o discurso da moda em certos meios e que, como tal, nem todos os que se deixam encantar pelas ideias liberais dominam o seu significado e implicações. Por outro lado, dada a infiltração recente do discurso liberal na sociedade civil, é certo que haverá sempre a tentação política de manipuladores experimentados nos partidos de poder assumirem o discurso com reserva mental, procurando ganhar os dividendos da sua popularidade sem terem o ónus de defender ou aplicar as medidas desagradáveis que ele exigirá.
Assim sendo, resta aos liberais portugueses abandonarem as ideias que impedem a existência neste momento de um partido liberal em Portugal, a saber:

1) a ideia de que um partido liberal é uma contradição nos termos, pelo facto de o liberalismo ser supostamente incompatível com o exercício do poder;

2) a ideia de que algum dos partidos do regime - PP ou PSD - poderá corporizar um projecto liberal, quando neles faltam pessoas com qualidades pessoais e políticas para o fazerem e e quando existe o real perigo de corrupção das ideias liberais por quem, nesses partidos, assuma com reserva mental tal discurso.

Mesmo que tais ideias sejam abandonadas não há qualquer garantia de que um partido liberal possa vir a ser formado. Aqui entronca o problema de que o RAF fala neste post. Há, nos meios liberais, tal como nos partidos do arco político, quem não esteja disposto a fazer política por razões inteiramente legítimas que têm a ver com a vida pessoal e com o desejo de fazer carreira noutras actividades. A contradição que o RAF aponta às reservas do regime e dos partidos parece também existir em quem, defendendo políticas liberais que reconhece não terem hipótese de serem abraçadas pelos partidos do regime, não quer protagonizar uma alternativa política liberal que, penso, os portugueses entenderiam como bem-vinda.

202 boas festas:

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