Licenciosidades

Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e mijou no mar.

"Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das suas vantagens"

Adam Smith (1776), Riqueza das Nações

domingo, maio 21, 2006

Num Filme Sempre Pop 1

A partir de agora e amíude no Licenciosidades, terei uma coluna de crítica musical para introduzir os ouvintes heréticos, descaminhados ou simplesmente agnósticos no templo sagrado da pop. Quem frequenta sites como o da mui recomendável Pitchfork, conhecerá algumas das bandas aqui mencionadas; outros, menos avisados, poderão ser tentados a fazer downloads emuleanos levados pela mão segura de "yours truly", no que, diga-se de passagem, só revelarão bom gosto. Para este blogger, fica salva a imagem de quem o possa confundir, não sem razão, com apreciadores da Diana Krall. Só vantagens, portanto...
A coluna chama-se Num filme Sempre Pop em homenagem aos tristemente esquecidos Ban. Sejamos justos, ninguém em Portugal é capaz de fazer um videoclip pop num barco rebelo como o João Loureiro.


1 - Twin Cinema - New Pornographers

Na esteira de uns Animal Collective, mas menos hiper-glicêmicos, os pornógrafos canadianos praticam uma pop saudável e bem disposta a partir das influências habituais de Brian Wilson ou Burt Bacharach, tudo gente que fica sempre bem mencionar numa crítica musical. Depois de um menos burilado Mass Romantic (2000), Twin Cinema (2005) ficará como um dos melhores discos do ano vencido, apenas ultrapassado, na modesta opinião do escriba, pelo caleidoscópico Illinoise de Sufjan Stevens.
O que é que se encontra por aqui? Simplesmente, a dose correcta de guitarras esfusiantes, baixo agitado e de uma bateria que, mais do que manter o ritmo, se entretém, e muito bem, a partir a loiça toda. Com a diva Neko Case nas vozes a dar um toque de classe à coisa, o álbum solta-se a partir do single instantâneo Bones of An Idol para 40 minutos de paródia e reboliço. Desde o Rock FM de Use It, com uma linha de piano viciante no verso, até às belíssimas baladas These are the Fables e Streets of Fire (esta última a fazer lembrar os saudosos Go-Betweens), passando pelo electro-pop com travo funk de Three Of Four (vozes abichanadas a condizer) e pelo power pop de Jessica Numbers, os rapazes vão fazendo o teste deste vosso escriba com uma perna às costas. Uma ou outra canção menos memorável (sobretudo, Sing Me Spanish Techno), não estraga o feito. Quem, como eu, já desmamou muita banda promissora no sempre competitivo campeonato Indie, não tem que duvidar do belo sortido que os Pornographers nos reservaram em 2005.
Termino, assim, com uma chamada de atenção para os organizadores do Paredes de Coura. Na companhia de Morrissey, os Pornographers garantiriam com toda a certeza uma noite mágica de pop andrógina e sexualmente desviante...(8.2/10)

2 - Discover a Lovelier You - Pernice Brothers

Também da colheita de 2005, Discover a Lovelier You é mais um álbum pop perfeito de Joe Pernice, texano e gémeo siamês, na voz, de Paul Heaton dos Housemartins. Há uma certa perversidade na voz do Joe que não consigo detectar na voz gémea de Heaton, mas a semelhança não deixa de ser notável.
Para quem amou a espantosa Build dos saudosos Martins, este álbum é como coca para a narina delicada da Kate Moss. A festa começa com Saddest Quo, linha de guitarra a seguir a lição de Girlfriend in a Coma com harmónica westerniana na bridge para o refrão final triunfante; seguem-se a sempre a abrir Snow (inclui solo à herói do Joe) e My So Called Celibate Life, uma nostálgica balada new orderiana por alturas de Republic. Passado o negligenciável instrumental que dá nome ao álbum, deparamo-nos com a candidata a Build do ano de 2005, Say Goodnight to the Lady, guitarrinha acústica a acumular acordes em tempo recorde para a voz de Joe espalhar amor pelas ruelas tristes da vida. O álbum não acaba sem Joe nos mostrar como se transforma melodias potencialmente ridículas em baladas capazes de derreter o que resta do coração do ex-KGB Vladimir Putin (Amazing Glow e Pisshole in the Snow).
Enquanto o ex-Housemartins Norman Cook, ontem herói, hoje vilão, se entretém a fazer pinchar bifas nessa Gomorra espanhola que dá pelo nome de Ibiza, Joe Pernice anda há anos a debitar obras-primas para os cactos do deserto do Arizona. Deixa lá, Joe, que, se houver justiça divina, tens 70 virgens à espera no Céu. (8.5/10).

7 boas festas:

Enviar um comentário

<< Home