Licenciosidades

Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e mijou no mar.

"Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das suas vantagens"

Adam Smith (1776), Riqueza das Nações

quarta-feira, maio 24, 2006

Os netos

A história de uma família abastada começa invariavelmente da mesma maneira: um homem constrói do nada um império empresarial. O homem trabalha toda a sua vida no duro e mesmo depois de juntar a sua fortuna nunca perde os seus instintos de poupança e parcimónia tentando, dentro dos possíveis, educar os filhos nos mesmos valores. Os filhos, por sua vez, apesar de admirarem o trabalho dos pais, nunca lhes perdoam os sacrifícios que tiveram que passar. Não esquecem principalmente aquela fase em que o império estava a ser construído mas em que já havia algum desafogo financeiro e mesmo assim o pai, fundador, insistia em limitar os gastos, marcado ainda pelo passado de pobreza.
Como forma de compensação subconsciente pelas privações que passaram, os filhos tendem a educar os seus próprios filhos, os netos, de uma forma completamente diferente. Os netos são educados num ambiente em que todas as suas vontades são cumpridas. Menosprezam e ridicularizam os sacrifícios por que passaram os avós para construir a fortuna de que gozam. Abominam qualquer limite que lhes seja imposto. O percurso típico do neto é terminar, aos 29 anos, um curso universitário alternativo, nunca chegando a ter uma profissão certa e passando a vida a depender da fortuna e influência da família. Apesar de jamais abdicarem da dependência familiar, detestam essa dependência. Ao fim de algum tempo começam a ver nos familiares a figura do capitalista e neles mais uma das vítimas. No seu subconsciente vai-se alimentando também um sentimento de culpa por nunca terem tido que trabalhar a sério na vida ao contrário da maior parte dos seus concidadãos; começam a sentir-se no dever de retribuir. Os netos povoam e lideram os partidos de extrema-esquerda, dizendo-se defensores da classe trabalhadora apesar de nunca terem, realmente, trabalhado na vida. Aproveitam a influência da família para se movimentarem nos orgãos de comunicação social e arranjam sempre uma editora para os seus livros independentemente da qualidade. Os netos só são suportados porque, apesar de tudo, a influência familiar ainda vai permitindo que o sejam. Mas os netos não sabem disso.

In a completely unrelated matter, o Daniel Oliveira fundou novo blog. Durante os próximos meses, até ele se zangar consigo mesmo e abandonar o blog, será uma das minhas leituras regulares.

9 boas festas:

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