Licenciosidades

Qualquer bocadinho acrescenta, disse o rato, e mijou no mar.

"Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm o seu próprio interesse. Apelamos, não para a sua humanidade, mas para o seu egoísmo, e nunca lhes falamos das nossas necessidades, mas das suas vantagens"

Adam Smith (1776), Riqueza das Nações

sexta-feira, maio 12, 2006

A palavra ao JLP

Continuando em pontos...

1- Não acho que a via de utilização dos actuais partidos do sistema tenha futuro, essencialmente por duas razões:A primeira é de que tanto o PS como o PSD são partidos sem ideologia, orientados somente para a obtenção do poder. Como tal, instituiram-se desde há muito em facções internas, baronatos e mecanismos de "contagem de espingardas" não baseados em facções ideológicas, mas sim em seguidismo de determinadas personalidades do partido, mais numa perspectiva de "apoiar o cavalo" do que um determinado programa. Vejam-se as moções apresentadas nos seus congressos, vazias todas elas de ideologia. Sendo assim, o próprio funcionamento interno e estatutário desses partidos é mais orientado para a estrutura, para os interesses das concelhias, distritais e dos "barões", do que para a discussão de moções. Existe até a bizarria estatutária, por exemplo no PP (como aliás se viu no últmo congresso), de se ter um lider eleito sujeito a seguir uma moção que não a sua, uma vez que as votações são separadas.Dificilmente vejo a perspectiva de um grupo liberal singrar nesse cenário;A segunda é que é extremamente importante, como referia o Francisco, que um eventual partido liberal surja separado do "sistema", sem esqueletos no armário e amarras a um qualquer passado e seus figurões. Alguém acredita que fosse possível no PSD alguém discursar contra o Cavaco e a sua herança (pelo menos enquanto ele for vivo)? Ou contra o Soares no PS? Além disso, há uma coisa que convém não esquecer: o principal alvo de um partido liberal é o estado, nomeadamente quem o geriu no passado. Fará algum sentido (ou pior, terá alguma credibilidade, à luz do presente), que venha no futuro alguém no PSD, por ex., dizer cobras e lagartos do mesmo PSD no passado, e além disso insurgir-se contra um estado pejado nas suas instituições de figurões do partido e portadores de "cartão laranja"?

2- Também fui membro (fundador) do MLS. Sai quando me apercebi que este funciona (e explora o "mercado") como albergue espanhol dos desiludidos da política actual, e os restos das "causas fracturantes" que não estão no BE, sem um mínimo de consistência ideológica e com acções e posições mais próximas das boas intenções e do marketing puro. Aproveita-se simplesmente do rótulo "liberal" como estratégia de marketing.Sustentei por lá desde o início uma batalha em prol da definição de um programa político concreto, baseado em linhas gerais de orientação (e não em vacuidades de "declarações de princípios"), que permitisse atrair pessoas pela sua convicção e não ao desengano. Não vi o mínimo interesse em seguir esse caminho. Perderam-se assembleias gerais a discutir estratégia, estratégia estratégia e nada de política. Não é portanto de admirar o curso que a coisa tomou, facilmente verificável na qualidade, profundidade e principalmente coerência inexistente na amálgama (fazendo juz ao nome) que é o Speaker's Corner.Não nego que tenha havido (e haja) voluntarismo e boas intenções, principalmente do Miguel Duarte, que quanto a mim (já lho disse) sofre do equívoco de achar que é liberal, quando tem um pensamento mais próximo da social democracia que é quotidianamente "secado" pelo governo Socrates. E que existam membros com valor, como o referido Vasco Figueira, infelizmente bastante apagado. Mas actualmente, o MLS constitui-se como um equívoco que importa esvaziar antes de criar danos efectivos à imagem do liberalismo em Portugal.

3- É importante ter em atenção que o mercado "liberal" da política é um mercado que se vai tornando cada vez mais apetecível em termos políticos. Importa portanto ter cuidado com as tentativas oportunistas que mais cedo ou mais tarde vão surgindo. Nestas incluo sem dúvida as presentes intenções de Paulo Portas, o "figurão" Pires de Lima, o famoso "liberal" defensor dos "centros de decisão", ou acções como a moção do João Almeida no congresso do PP. Há que ter o cuidade de destrinçar e expor aquilo que não passa de marketing político.O João Almeida, que até penso ser bom rapaz, foi meu colega conselheiro nacional da JC há coisa de 10 anos, e na altura não lhe vislumbrava grandes dotes liberais. É também uma pessoa que deve na sua totalidade o seu estatuto de deputado ao seu carreirismo no interior do PP. Tenho muita dificuldade em aceitar este género de "epifanias"...

4- Sem dúvida que sou defensor da criação de um partido liberal. Mas com cuidado e clareza, que seja assente numa declaração inicial de princípios e posições objectivos, para não se enganar ninguém. Que não caia num lado nos defensores das "causas fracturantes" porque sim, cheios de discurso de promoção e apoio de "liberdades positivas" (não digo que algumas dessas causas não sejam importantes, mas como consequência de um paradigma político de eliminação do estado da esfera do indivíduo, não como metas por si próprio), nem no outro no que costumo denominar de "liberais na carteira" somente preocupados com o liberalismo económico e geralmente conservadores em termos de liberdades individuais, quando não até mais próximos do conservadorismo católico.Para já fica assim...

JLP

Nota: a posição do JLP está muito próxima da minha e tem o mérito de pertencer a alguém que conhece melhor que eu a realidade da vida partidária nacional.

7 boas festas:

Enviar um comentário

<< Home